O MUNDO NO FUTURO

SETI: reunião em Londres


O SETI (instituto para a busca de vida extraterrestre), sediado na Califórnia, pretende "perceber e explicar a origem, natureza e prevalência da vida no universo" e lançou na internet um apelo aos cidadãos para sugerirem mensagens a enviar para o espaço. O SETI é o interlocutor da discussão que começa juntar vozes de especialistas e leigos um pouco por todo o mundo: devem os humanos enviar mensagens para o espaço para tentar contactar outros seres do universo? Será que a Terra deve assumir um papel mais proactivo no contacto com prováveis mundos alienígenas?

O objectivo é "perceber o que as pessoas à volta do mundo gostariam de dizer a um extraterrestre, se é que querem dizer alguma coisa", explica ao i Douglas Vakoch, director do departamento de composição de mensagens interestelares do SETI. "A opção de escutar em vez de transmitir continua a ser a melhor abordagem para fazer contacto com outros mundos nos próximos anos. Mas, ao começarmos a planear os próximos 50 anos de actividade, temos de decidir se queremos enviar as nossas mensagens para o espaço em vez de ficar só a ouvir. E esta é uma decisão demasiado importante para ser tomada por um um grupo de cientistas", adianta o responsável.

Simon Conway Morris é um dos cientistas convidados para um encontro que começa hoje na Academia de Ciências britânica, em Londres, para discutir a detecção de vida extraterrestre e as suas consequências na ciência e na sociedade.

A sua comunicação tem o título "Prever o que será a vida extraterrestre - E estar preparado para o pior". "O meu principal argumento é que a evolução é muito mais previsível do que as pessoas pensam", explicou ao "The Sunday Times". "Diria que a emergência, através da evolução, de inteligência e capacidade cognitiva é inevitável" Marek Kukula, outro astrónomo que participa no encontro, acrescenta outra ideia: "Gostamos de assumir que se existe vida inteligente lá fora, é inteligente e benevolente. Mas claro, não temos a certeza", disse ao diário britânico.

O debate na The Royal Society será o ponto de partida para a discussão, estando marcado um encontro mais alargado de especialistas para Abril, no Texas.

A existência de mais de 400 planetas com órbitas à volta de outras estrelas que não o Sol é um facto estabelecido. É bom que exista um debate público vivo sobre a possível existência de vida extraterrestre. Lidar com as consequências de uma potencial descoberta de vida extraterrestre tem de ser um esforço global.

A 3 de Junho do ano passado, chegaram a ser detectados 8616 sinais para avaliação, mas nenhum se revelou positivo. Apesar de os cientistas relatarem uma frustração diária, quando já foram analisadas milhões de estrelas e frequências, acreditam que num dia como amanhã pode finalmente chegar correio.

O tempo em que, forçados por uma visão egocentrica e narcísica, acreditávamos que éramos os únicos seres inteligentes do Universo está a terminar, ainda que, por muitas centenas ou milhares de anos, nos mantenhamos isolados neste nosso pequeno planeta escondido num canto da Via Láctea.

Nelson S Lima: Numa altura em que até somos capazes de enviar sondas para estudar o Espaço e já estivemos na vizinha Lua, devemos ter uma visão do mundo (e do futuro) mais aberta e ambiciosa que nos permita aceitar como altamente provável que haja outras civilizações (de tipo humano?) algures no Universo, mesmo que não tenhamos nenhuma prova nem mesmo qualquer suspeita. Para tanto basta usarmos algo que em Ciência, às vezes, faz falta: humildade. Virtude que, aliada, a alguma inteligência e bom senso, permitir-nos-á afirmar que é altamente improvável não haver civilizações extraterrestres tal é a imensidão do Universo (mesmo aquele que já é relativamente conhecido), independentemente do tipo e do nível de desenvolvimento que esse nichos de vida inteligente possam apresentar.

Por detrás dos sentimentos que nos impelem a olhar para as estrelas e a interrogar-nos onde poderá haver seres vivos mais ou menos como nós, existe uma predisposição inata, ancestral, para a exploração do mundo para além dos horizontes que nos limitam a descoberta. Sempre foi assim em toda a história humana; é assim na história de cada um de nós, especialmente quando ainda crianças queremos desvendar e explorar o mundo à nossa volta.Um dia chegará o tempo em que talvez os tais povos algures no Espaço nos vejam chegar com as nossas naves. Não aconteceu qualquer assim parecida no nosso próprio planeta?

A paciência é também uma virtude que, neste tipo de tarefas, é necessário cultivar. Se ainda não se confirmou a existência de civilizações extraterrestres não é caso nem para frustração nem para suspeitarmos que não existem.O Espaço é imenso, muito mais do que imaginamos. Nós estamos escondidos num canto da nossa galáxia. E ocupamos um pedacinho de terreno quase invisível. Por outro lado, só há poucos anos começámos a pesquisar os céus de uma forma concertada. Nestas matérias não podemos esperar resultados em meia dúzia de décadas, até mesmo centenas de anos.Quando o tema é o Universo (ou o Mundiverso?) e a sua descoberta temos de pensar numa escala de centenas, de milhares ou de milhões de anos. Não somos nós uma espécie com apenas 150 a 200 mil anos de história? O que é isso na história do mundo? Apenas uma fracção de tempo. Há pois que continuar a pesquisa. Quer queiramos quer não é algo que faz parte do nosso destino. Basta espreitar os genes e perceber que tipo de seres vivos nós somos. Ou espreitar a nossa história.
Nelson S Lima
TeamSETI member

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É pacífico aceitar que, dentro de 1 a 10 milhões de anos, a vida na Terra terá um aspecto completamente diferente e os seres vivos que por aqui se movimentarão apresentarão organismos e formas completamente distintas dos animais que conhecemos actualmente. O mesmo se passará com a flora. Voltarão os tempos em que os animais e as plantas atingirão proporções inimagináveis fazendo recordar épocas passadas em que a Terra era povoada por répteis de tamanho gigantesto e grande dinossauros (eles povoaram a Terra durante mais de 180 milhões de anos e desapareceram há cerca de 65 milhões de anos, muitos milhões de anos antes dos primeiros seres aparentados com os futuros humanos terem surgido).

Cronograma de Nelson S Lima (c)

Mas, para além desta hipotética versão do futuro - que, no mínimo, dá para pensar - uma pergunta se coloca: e o ser humano? Por onde andará dentro de 100 mil anos ou 1 milhão de anos? Existirá ainda? Na Terra? O estudo sugere que não. Não estaremos aqui. A Terra estará dominada por grandes e inesperados animais. Será de novo um território pouco amistoso para o ser humano. Vai a nossa espécie extinguir-se como muitas outras que já aqui viveram?(não nos esqueçamos que de todas as espécies de animais que viveram no nosso planeta em toda a sua história de mais de 4 mil milhões de anos, 90% já não existem - o caso dos dinossauros é o mais conhecido).



O argumento de que a actual espécie humana não se extinguirá mas será objecto de uma mais ou menos lenta evolução - tal como aconteceu no passado - é aceite por um número crescente de cientistas. Se antes de nós existiram outras espécies das quais somos descendentes porque não aceitar que a Natureza continuará a obedecer às mesmas leis da evolução? Embora, actualmente, o ser humano, por força da tecnologia médica, consiga contrariar a lei dos mais fortes (aquela que impede que os indivíduos menos aptos física e mentalmente sobrevivam e deixem descendentes) a evolução da espécie é ponto assente. A crescente sofisticação da sociedade exigirá dos mais aptos novas necessidades de adaptação (sobretudo cerebrais e cognitivas) para sobreviver. E, assim, é de crer que a actual espécie humana continuará o seu caminho. Rumo a novos patamares evolutivos. Tal como aconteceu antes.

As espécies anteriores viveram na Terra durantes milhões de anos. Extinguiram-se por diferentes motivos, muitos deles relacionados com a incapacidade de resistirem a alterações climáticas, a doenças, aos animais predadores e a chacinas de grupos humanóides mais poderosos (houve uma época - longa - em que na Terra "conviveram" 5 diferentes espécies de seres hominídeos). A nossa espécie é a única que resta e está ainda no início da sua história. Tem apenas entre 150 mil e 200 mil anos. Nada de especial pois a espécie Homos Erectus sobreviveu mais de um milhão de anos tendo convivido com outra espécie, o Homo Habilis, considerada mais desenvolvida e mais moderna. Assim sendo, temos ainda muito futuro pela frente.

Uma tese - que aqui proponho - é mais radical: os seres humanos - cuja história começou há muitos milhões de anos, muito antes dos proto-humanos, têm um conjunto de características que são determinadas biologicamente e que os tornam diferentes dos restantes seres vivos conhecidos: são seres pró-activos, criativos, muito inteligentes, muito hábeis, em movimentação constante pelo mundo, construtores frenéticos, curiosos compulsivos e ambiciosos em extremo. Sempre o foram ao longo da história. Deram os primeiros sinais dessa sua natureza quando começaram a percorrer a Terra em busca de novos espaços para viver, quando começaram a construir artefactos e a criar comunidades sedentárias (aldeias, depois cidades e nações) e quando inventaram os primeiros meios de transporte (estabelecendo uma cada vez mais complexa rede de ligações terrestres e aquáticas com diferentes destinos).



Entre as primeiras jangadas e as naves espaciais tripuladas passaram apenas algumas dezenas de milhares de anos. Se, como espécie, ainda temos 150 mil a 200 anos de vida e se, na pior das hipóteses, ela nunca se extinguirá antes de um ou dois milhões de anos (podendo também dar origem a uma ou mais novas espécies, mais poderosas e hábeis tal como aconteceu no passado com as antigas espécies hominídeas) o que podemos esperar?

O futuro do Homem está algures no Universo

Olhando para o passado da evolução nos últimos 15 a 20 milhões de anos tudo parece indicar que viemos para ficar ainda que possamos ser apenas mais uma espécie que dará um dia origem a novas ramificações mais evoluídas. Daqui decorre a teoria do Universo Humano. Esta teoria - que me atrai bastante - vê o universo como um espaço imenso que será um dia povoado pelos seres humanos.

Se hoje nos parece altamente improvável viajar a velocidades que nos permitam chegar a outros planetas habitáveis para neles darmos continuidade à nossa saga isso não constituirá obstáculo dentro de um número razoável de anos quando a tecnologia atingir um ponto de não retorno. O regresso à Idade da Pedra jamais acontecerá.

Definitivamente libertos da Terra seremos (os novos?) senhores do Universo, da mesma forma que um dia, muito depois de descermos das árvores, povoámos o planeta e nos assenhoreámos dele. O Universo é, mais do que a Terra, a nossa casa. A Terra é apenas o ponto de partida - ou de passagem - para outros mundos ainda que isso nos venha a obrigar a adaptações e transformações biológicas que só os homens do futuro conhecerão. Conheceremos outros seres inteligentes algures estabelecidos noutras galáxias? Talvez. Também os navegadores do século XVI descobriram uma América povoada de outros seres humanos e com civilizações e culturas diferentes.

Só assim posso compreender porque, desde sempre, o ser humano e as anteriores espécies caminharam de forma aparentemente irresistível no sentido da expansão, o que favoreceu o progresso tecnológico (veja-se a históra da aviação). Por isso costumo dizer que quando o homem do Neolítico inventou a roda iniciou, nesse preciso momento, a história das viagens espaciais. Viagens que, actualmente, mais não são do que as primeiras tentativas para sairmos do Sistema Solar e irmos em busca de novos lares algures do outro lado do Mundo .

A Mente Executiva e o Horizonte de Tempo

Uma das faculdades humanas a que dou mais importância na hora de avaliar um candidato a um lugar de direcção é a que se designa como "horizonte de tempo". Aprendi isto nos anos 80 e cada vez mais acredito que é uma aptidão mental surpreendente e de uma utilidade indiscutível no nosso tempo.

Lembro que o "horizonte de tempo" parece só existir no ser humano e fica a dever-se aos chamados "lobos frontais" do cérebro onde actua a nossa mente executiva. Na prática traduz a capacidade de concebermos a dimensão tempo para nela projestarmos e planearmos acções no futuro (a médio e a longo prazo). É um trabalho muito "cerebral" mas o resultado é um processo mental.

Por outras palavras, o "horizonte de tempo" representa a extensão máxima de tempo que a mente consegue alcançar e imaginar em diresção ao futuro, permitindo-nos aí colocar as nossas "agendas mentais". Por exemplo, quando planeamos as actividades para o próximo ano nós estamos usando o nosso "horizonte de tempo". A cada instante da vida estamos, aliás, a utilizá-lo para podermos atuar no minuto seguinte, mais logo, amanhã, para o próximo mês, para o ano, etc.

Acontece que algumas pessoas são capazes de trabalharem mentalmente com ideias e projectos que se estenderão muito longe no tempo e outras revelam dificuldade. Os seus esforços mentais para lidarem com períodos de tempo alongados saem infrutíferos. A sua contribuição torna-se mais pobre nas reuniões em que se planeiam iniciativas a longo prazo.

Na prática, os grandes visionários revelam possuir amplos "horizontes de tempo" mentais. Também os futuristas profissionais (como Alvin Tofler e James Canton) têm essa faculdade. Muitas vezes acreditamos, com alguma ingenuidade nossa, que os visionários e os futuristas são apenas pessoas bem informadas, intuitivas e muito criativas (quando não acontece pensarmos que são meros adivinhos!). Na verdade, as suas faculdades mentais ultrapassam esses atributos.

O seu "horizonte de tempo" revela também sua inteligência
Aumentam as provas científicas de que quanto mais profundamente o nosso cérebro for capaz de actuar com a dimensão tempo-futuro mais inteligentes somos. Nas pessoas em que o "horizonte de tempo" é pequeno verifica-se alguma rigidez na elasticidade de resposta a desafios em que o fator tempo-futuro seja decisivo.

Em épocas como a nossa - em que temos de lidar com a complexidade, a ambiguidade, a rapidez dos acontecimentos e o paradoxo - as pessoas habilitadas a funcionar com amplos "horizontes de tempo" estão mais à-vontade para responderem criativamente aos desafios.

Conclui-se facilmente que na hora de uma organização (um Governo, uma Empresa, etc.) escolher o seu timoneiro deve preocupar-se em encontrar alguém que, além de outros predicados, possua uma ampla capacidade de conjugar o futuro com o presente.

Qual é habitualmente o perfil destas pessoas? Pois bem, eu dou muita importância aos seguintes pontos:

- estar aberta a um amplo leque de fontes de informação;
- ser capaz de obter mais do que uma resposta para os problemas;
- saber usar conhecimentos ou informações contraditórias para gerar respostas alternativas;
- pensar criativamente;
- dar igualmente atenção às questões periféricas dos grandes problemas;
- não ter receio de gerar e expor novas teorias ou explicações mesmo que, numa primeira fase, pareçam bizarras e impossíveis;
- encarar a incerteza como recurso!

Para testar os candidatos costumo perguntar-lhes sobre o que pensam como evoluirá a sociedade, a empresa e eles próprios, assim como seus projectos e ideias de futuro. Acreditem que a diversidade de respostas é muito grande mas o mais confrangedor é que são poucas as pessoas que revelam flexibilidade mental suficiente para lidar com "horizontes de tempo" amplos (há um aspecto a considerar: a "memória semântica", aquela que "guarda" os seus conhecimentos acerca do Mundo).

Como prática activa costumo aconselhar que as pessoas façam exercícios de imaginação sobre o futuro a 10 ou 20 anos de distância. Não é um trabalho de adivinhação que pretendo mas de agitação mental e de expansão da consciência. Também a leitura de artigos, sites e livros sobre visões do futuro são muito úteis - diria, absolutamente fulcrais - pois abrem os nossos horizontes mentais. Não podemos pensar sobre o futuro se pouco sabemos do presente e do passado!

Tempos diferentes produzem mentes diferentes


"Todos precisamos de pensar no futuro de modo diferente: um futuro crivado pela mudança, pelo desafio, pelo risco. É uma nova espécie de futuro: não a marcha firme e penosa de progresso entre um momento e o seguinte, pontuada de breves explosões de inovação que caracteriza grande parte da História. (...) O futuro das nossas vidas, do nosso trabalho, dos nossos negócios - e, acima de tudo, o futuro do mundo - depende de adquirirmos um novo conhecimento sobre as mudanças vertiginosas que se estendem à nossa frente. Chamo-lhe "estar pronto para o futuro". (...) Aproximam-se mudanças extremas que designo como Futuro Radical: um futuro altamente dinâmico, disruptivo e multidimensional". Foi assim que o investigador e futurologista James Canton, presidente do Institute for Global Futures, descreveu os tempos que se aproximam, os quais, pela natureza e amplitude das transformações, serão surpreendentes e paradoxais para muitos milhões de seres humanos.

Um dos primeiros documentos que chamavam a atenção para esta fractura com o passado tem um título apelativo e esclarecedor. É o Choque do Futuro, de Alvin Toffler. Seguiram-se outros trabalhos, alguns mais complexos, de diferentes autores onde se destacam Clare W. Graves, Richard Dawkins, Mihaly Csikszentmihalyi, Ken Wilber, Charles Handy, Jenny Wade, Susanne Cook-Greuter, etc.

Todos os seus contributos podem ser inscritos na psicologia do desenvolvimento - o estudo do crescimento e desenvolvimento da mente: o estudo do desenvolvimento e da evolução da consciência.

A maioria dos modelos elaborados até hoje baseiam-se na máxima "tempos diferentes exigem pensamentos diferentes" e defendem que a evolução da mente humana faz-se através de ondas ou estádios que se desenvolvem.

A inteligência criadora do Homem



"O antigo mapa mundial está obsoleto - estamos a sofrer a mais profunda reorganização do Poder Global desde o nascimento da civilização industrial (Alvin Toffler, New York Times, 31/10/93).

Estamos a subir rumo à Era Conceptual. Para trás ficaram - mas não desapareceram - as Eras da Informação, da Indústria e da Agricultura. Vivemos numa sociedade complexa onde coexistem 4 "mundos" ou sistemas de sociedade (do 1º ao 4º mundo). Pessoas e empresas da Era Fabril coexistem com pessoas e empresas da Era da Informação. E, umas quantas (2% da totalidade), estão a entrar e a formatar a Era Conceptual.

Quais são as implicações desta mudança de paradigma? Muitas. Precisamos de um novo tipo de consciência (ecológica e holística) para lidarmos com sucesso com as novas "tribos", impérios, ideologias e zonas de empreendimentos que cobrem o planeta. Temos de aprender a trabalhar de forma construtiva com sociedades humanas do 1º ao 4º Mundo, dos mais ricos aos mais pobres, dos capazes aos incapazes. E devemos tentar perceber porque é que a natureza humana causa tanto caos e perturbação. As querelas de hoje, tudo, alíás, o que o ser humano faz, tem implicações intercontinentais.

O mundo está sempre a mudar. Em cada Era ou fase, as "visões do mundo" e a mente humana alteraram-se. "Entre cada etapa da história humana peregrinamos de um despertar para outro, tornando-nos seres ligeiramente diferentes em cada pessoa. Novos tempos produzem novos pensamentos à medida que são criadas novas teorias de tudo, que a história é revista, que as prioridades e os valores são reordenados-empilhados, e as pessoas admiram-se de não terem visto antes tudo tão claro" - escrevem Beck & Cowen (1993), com a concordância de Ken Wilber (2005).

Rumo a um futuro não improvável

A primeira vez que me interessei apaixonadamente pelo estudo da inteligência humana deu origem a meu primeiro livro. Intitula “5 Mil Anos de Transportes” (1980) e está esgotado. Tem 500 páginas e 200 fotos.
Para a época foi um empreendimento pessoal que me exigiu grande esforço pois não havia nem computadores nem internet e todo o trabalho de pesquisa exigiu intensa troca de correspondência com centenas de instituições de todo o mundo, incluindo a NASA (que me forneceu elementos para o 17º e último capítulo que procura desvendar o futuro dos meios de transportes). Mais tarde, esse livro serviu de base a minha tese de doutoramento em Investigação que incidiu sobre a relação entre Inteligência e Criatividade.


Depois de investigar como, ao longo dos últimos 5 mil anos, o ser humano foi capaz de conceber e desenvolver diferentes formas de se deslocar no planeta, permitindo-lhe incrementar as trocas comerciais, promover a expansão marítima, a conquista do ar e a aventura no Espaço fiquei ciente de que para a “inovação empreendedora” a necessidade constitui um dos principais, senão mesmo o principal, factor de criatividade.

De facto, com raras excepções, é devido à necessidade de resolver problemas que a nossa mente age em busca de soluções. Não havendo esse sentimento, ficamos embalados no conformismo e na acomodação das situações. E então nada acontece de novo.

Fundamentos históricos da inteligência criadora

A nossa espécie é muito recente na história do planeta. Ela terá entre 150 mil e 200 mil anos. Surgiu a partir de ancestrais cujo aparecimento é muito anterior, no mínimo 2 a 4 milhões de anos. Mas até recentemente – cerca de 10 mil anos – o nosso cérebro não mostrou grandes feitos.

Os primeiros indícios de inteligência criadora datam de apenas há 300 ou 400 mil anos, com as primeiras lâminas em pedra criadas para rasgarem e prepararem peles. Depois foram surgindo outros tipos de instrumentos. Por exemplo, há cerca de 120 mil anos já havia ferramentas em osso. E, mais recentemente, há uns 40 mil anos, a inovação de pontas de projétil usadas como armas, serviram para caçar animais de uma distância segura e também para uso nas lutas entre tribos rivais.

Veja-se agora o reflexo destas primeiras inovações no progresso social. O aumento do número de artefactos para trabalhar, caçar e lutar incentivou a cooperação entre famílias e tribos, promovendo-se dessa forma o desenvolvimento de redes sociais e o estabelecimento de acordos. As trocas de produtos começaram a processar-se a um ritmo crescente. A melhoria de contactos facilitou maior protecção entre grupos e com isso o aumento da população. A competição agudizou-se igualmente e o progresso começou a tornar-se numa marca da genialidade humana.

Entre 50 mil e 20 mil anos atrás ocorreu, por fim, uma mutação genética em algum grupo socialmente mais activo que teve o efeito de tornar o cérebro de seus membros capaz do chamado pensamento simbólico e da linguagem. Estas novas aptidões cognitivas tornou-os mais inteligentes tendo com isso adquirido uma vantagem considerável sobre os povos não-portadores de tal mutação que, por via disso, foram sendo ultrapassados e substituídos.

Com a capacidade pensar simbolicamente e de usar a palavra como instrumento de comunicação de ideias e conhecimentos, os nossos ancestrais mais directos rapidamente se tornaram autónomos. Criaram a agricultura, a pastorícia, o comércio e demais actividades. E com elas, novas ferramentas, novos processos de trabalho e de negócio. Mais recentemente, o dinheiro – outra invenção genial – facilitaria as actividades mercantis. Barcos e carros de tração animal começaram a transportar mercadorias para paragens cada vez mais longínquas. A primeira grande onda de progresso estava em movimento!

O papel do comércio no desenvolvimento da inteligência humana não pode ser ignorado. Foi graças a ele que a navegação se desenvolveu com a criação de mais e melhores embarcações que puderam então viajar até mais longe e com maior segurança. Foi através do comércio que muitos povos isolados iniciaram intercâmbios com outras populações, adquirindo novos produtos, modas e conhecimentos. O comércio incentivou a aplicação da aritmética e da linguagem, a invenção da escrita e do papel, a criação de estradas, etc. As necessidades crescentes de consumo e a satisfação da curiosidade levaram o cérebro humano a desenvolver mais ramificações internas entre os neurónios, como acontece com os bebés à medida que crescem e aprendem coisas novas. As pessoas tornaram-se mais espertas, mais ágeis no pensamento prático e na resolução de problemas.

A competição continuou a crescer. Umas vezes conduziu a guerras devastadoras e à escravatura de povos. Outras vezes turbinou a inteligência criadora melhorando processos de trabalho, desenvolvendo ferramentas, acelerando a criação de novos produtos em diferentes tipos de materiais (barro, ferro, estanho, etc.). Essa competição esteve sempre na base do progresso técnico, social, cultural, artístico e económico. Já não era a necessidade de sobrevivência que ditava as leis mas a necessidade de riqueza, comodidade, bem-estar e poder.

No século XXI a inovação em gestão é vital

Desde a invenção da roda que 5 a 10 mil anos se passaram. Os primeiros carros de tracção animal usados no transporte de colheitas e mercadorias datam de há 3 a 4 mil anos. Os primeiros achados de veículos em madeira foram detectados na antiga Suméria, no Próximo Oriente, onde se desenvolveram grandes cidades comerciais.

Em 5 mil anos o mundo transformou-se profunda e radicalmente. Podemos encontrar diferentes ondas. Alvin Tofler descobriu três. A primeira durou até à revolução industrial e era dominada pela agricultura. Depois seguiu-se a Era industrial e, finalmente, a sociedade da tecnológica que hoje vivemos, com toda a complexidade de sistemas, processos e redes. O mundo se tornou numa “aldeia global”, ficou “plano”. O incremento das relações humanas e a facilidade com que se processam atingiram valores impensáveis há apenas 20 anos.

De um momento para outro, as organizações humanas viram-se confrontadas com a necessidade de novas formas de gerir os negócios e interesses em todos os domínios: na produção, na comercialização, no financiamento, nas relações com os consumidores, etc.

As regras e as práticas da era industrial começaram a ficar obsoletas e a darem mostras de incompatibilidade com a natureza complexa, ambígua e indeterminada dos tempos actuais. O simples método da previsão, tão em voga na sociedade fabril, deixou de funcionar. Toda a previsão em negócios é agora um exercício de alto risco dada a cada vez maior instabilidade dos mercados, as modificações observadas ao nível da psicologia dos consumidores e ao cada vez mais curto ciclo de vida dos produtos.

A actual era exige dos gerentes e administradores novas competências e sobretudo novos talentos. Já não basta ter vocação ou paixão pelos negócios. Isso não é garantia de sucesso. Agora é preciso mais, muito mais.

As empresas sentem-se cada vez mais na necessidade de contratarem os melhores colaboradores, não apenas os das posições superiores mas também os que desempenham actividades mais rotineiras e até aqui pouco estimadas como a das recepcionistas. Na verdade, a Era que vivemos já não é a da informação e do conhecimento. Estamos sim na era da inteligência e do pensamento competitivo (Era Conceptual).

A inovação em gestão e em governação é vital. A actual crise financeira internacional é o reflexo de mudanças subterrâneas que estavam acontecendo e que anunciavam a nova Era. Quase todas as empresas, mesmo as mais bem dotadas de genialidade, foram apanhadas de surpresa e assistem, incrédulas, ao desmoronar de crenças, normas, práticas, ideias e processos que serviram adequadamente na sociedade fabril mas que se tornaram quase inúteis nos novos tempos.

É tempo de pensar rapidamente no que fazer. É urgente inovar na gestão. Não basta o apoio dos governos para a crise económica que afecta todo o mundo. Isso será apenas uma panaceia para cobrir problemas financeiros imediatos. É tempo de agir e preparar o futuro que já está à nossa frente.

A inovação passará também pelo ensino e a formação, sectores que em geral se encontram desajustados das necessidades da Era Conceptual. Um novo tipo de pensamento prático torna-se urgente desenvolver nas escolas, nas universidades e nas empresas.

Finalmente, as leis de Darwin – que explicam a evolução dos sistemas vivos – estão mais actuais do que nunca no mundo empresarial: só os mais fortes, competitivos e inteligentes sobreviverão. Mas, ao contrário do que se passa no reino animal, onde a evolução acontece geralmente de forma gradual, sem grandes rupturas e descontinuidades, no mundo das instituições e das empresas, a evolução pode ser marcada por grandes saltos, bruscas viragens de direcção e eventos muito rápidos e imprevisíveis.

Assim sendo, razão terão alguns visionários que profetizam o desaparecimento de mais de 80% das empresas actuais nos próximos 5 a 10 anos em todo o mundo! É que poucas terão massa cinzenta apurada para discernir sobre o que fazer realmente. Continuarão agindo como na Era Fabril, incrédulas perante o infortúnio e a surpresa da mudança. Fecharão as portas. Felizmente para a sociedade e a economia, ficarão aquelas que estão despertas para a natureza das transformações que terão de enfrentar e também as empresas de nova geração que estão desabrochando no horizonte.

Finalmente, deixem-me que lhes diga o seguinte: as empresas actuais não podem agir como fizeram os proprietários das diligências do século XIX quando se aperceberam que o caminho de ferro podia ditar o seu fim. Durante anos protestaram contra o novo meio de transporte, clamaram por apoios dos governos e dos parlamentos. Lançaram boatos. Atentaram contra as ferrovias. Fizeram explodir locomotivas. Nada feito. Há muito tempo que não há diligências nas estradas.

Os tempos que vivemos são complexos e tempestuosos. Mas o mundo ficará melhor servido, com renovadas e melhores organizações, quando, quais "feiticeiros da espiral," os líderes empresariais adquirirem uma visão integral do mundo e não uma visão compartimentada como tem acontecido.

Biblio:
Beck, Don E. & Cowan, Christopher C., Spyral Dynamics, 1996
Wilber, K, A Theory of Everything, 2001.
Lima, N., 5000 Anos de Transportes, 1981.

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